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Coisas da escola
Sunday, March 14, 2004
  "Faz-me falta a mãe aqui e agora"

Não sei o que mais me doeu.
Se a ausência de intimidade daquele corredor transformado em fraldário improvisado, se o choro intenso daquele menino, se a desatenção do adulto que dele se ocupava.
Não sei o que mais me doeu.
Porque tudo doi quando vemos a ignorância sobre a infância e o sofrimento que provoca.
O menino chorava. Choro sentido. Profundo. Deitado de costas chamava, entre soluços, a sua mãe.
- "Qual mãe! A tua mãe está a trabalhar. Fizeste a porcaria e agora chamas por ela! Porcalhão, a fazer cócó nas cuecas! Não sabes pedir para ir ao bacio?!... Seu porcalhão! Olha lá para isto!..."
Coloquei a minha mão sobre a sua testa e afaguei-lhe os cabelos. Era a alma que eu queria afagar.
Queria dizer-lhe que aos dois anos é perfeitamente comum um descuido destes.
Queria dizer-lhe que compreendia o seu choro.
Queria dizer-lhe que ele tinha o direito a estar num espaço intímo, com um adulto sensível a dizer-lhe que não era grave, que nos acontecem estas coisas quando somos pequeninos, ou quando estamos doentes, que ficava um segredo entre nós, só nós dois, que vamos os dois conseguir ganhar a batalha do bacio, ...
Mas aquele adulto que lhe segurava as pernas (e lhe reduzia a vida) falava sempre sem parar, palavras gastas, palavras demasiadas. Era silêncio, afeição e empatia o que aquele menino precisava.
Não sei como me apareceu na voz um pássaro a voar.
Só sei que me ouvi a falar-lhe de um pássaro que estava ali, pousado na janela banhada pelo sol magnífico da manhã.
Um pássaro que cantava em segredo só para ele.
Os seus olhinhos brilhavam de água quando se encontraram com os meus.
O adulto que do menino cuidava aquietou-se.
Eu parti com o coração apertado.
Talvez o pássaro continuasse a cantar! 
Sunday, February 08, 2004
  Uma reflexão urgente. Agora, que se anuncia legislação retrógada, é ainda mais necessário dizermo-nos o que não podemos calar!



Às vezes (muitas vezes) os conceitos tolhem-nos a percepção fresca que, só ela, funda e sustenta todo o conhecimento.

Há palavras-chave que nos abrem as portas do mundo e do outro (ou palavras-geradoras na fecunda semântica de Paulo Freire); e há palavras-muro que nos limitam o encontro, há palavras-vampiro que nos sugam a inteligência.

As palavras deficiente e deficiência são desta última natureza. Ainda que ditas com a intencionalidade da discriminação positiva, ainda que gritadas para dar visibilidade a milhões de cidadãos excluídos e silenciados (invisíveis...), dizer deficiente, nomear deficiência, é convocar tempos de escuridão, séculos de ignorância, memórias do desamor.

Sobretudo na Escola. Para nossa vergonha!
Nossa remete aqui para muitos sítios, para muitas gentes, mas quero dirigi-la sobretudo para os que aceitámos fazer da profissão de educar o locus principal do compromisso ético e cívico com o mundo.

Quando conjugamos escola e meninos e jovens com deficiência, as narrativas dos últimos cem anos são maioritariamente sobre a impossibilidade do encontro, sobre a segregação, o paralelismo, a exclusão. A história da escola do século XX, “o século da escola” como já foi conhecido, é uma história atravessada por traições sistemáticas às generosas ideias que a edificaram, e que dificilmente diremos melhor que a síntese de Comenio, ao pensar e chamar a escola de “oficina de humanidade”.

Porque nalgum tempo de sombras (que teimam em permanecer) se edificou a escola sob o mito perverso de que só é possivel educar alguns, precisamos agora de nos dizer, e em coerência cumprir, o que sempre foi, mas de que tragicamente nos afastámos: somos todos diferentes; a vida só é possível nesta tensão criadora entre diferença e complementaridade!

Albert Jacquard (1978), um dos maiores cientistas do nosso tempo, especialista em Genética, invoca Saint-Exupéry quando escreve: “Se sou diferente de ti, longe de te prejudicar, aumento-te”. E prossegue: “Todos os nossos reflexos negam esta evidência. A nossa necessidade superficial de conforto intelectual impele-nos a reduzir tudo a tipos e a julgar as coisas de acordo com esses tipos; mas a riqueza está na diversidade. (...) A primeira lição da genética é que os indivíduos, todos diferentes (e todos semelhantes) não podem ser classificados, ordenados. (...) A pergunta sobre o menos bom e o melhor não tem resposta”.

A inclusão de todos, a escola para todos, não é um mito. É uma evidência. É uma necessidade vital à organização das sociedades. É uma urgência incontornável para a escola, cujo adiamento só nos atrasa e empobrece. E tenhamos a lucidez e o discernimento para compreender que, face à enorme crise social que se adivinha, esta cultura inclusiva, esta cultura cooperativa, é uma cultura de sobrevivência. A sua negação representa um pacto perigoso com todas as barbáries.

A inclusão é também, e sobretudo, a matriz subjacente a toda a vida. A física quântica, a astrofísica, a biologia, a medicina, a genética, a economia, a ecologia, demonstram, cada dia e em crescendo, a unidade, a transactividade dos elementos e dos fenómenos, num bailado infinito de coesão e complementaridade entre diferentes, traduzindo-se na complexidade que é condição da própria vida.

Assumir a educação inclusiva é participarmos, enquanto educadores profissionais, numa matriz que é hoje transversal a todo o pensamento científico, a toda a cultura humanista, a toda a organização sócio-política comprometida com a ideia de progresso e assente nos valores perenes e universais inscritos na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

As dimensões da alteridade e da solidariedade emergem como paradigma do encontro educativo. Permitiremos nós, professores, que a escola continue a escrever uma história ao arrepio da Ciência, da Ética e da Cultura?
 
Saturday, January 31, 2004
  Porque só a poesia é radical!...

"Aquele menino cercado
tem um destino de pássaro.
(...)
Aquele menino tão sábio,
Tão rico de madrugadas."

MBSB 
  Pedagogia Waldorf: desafios à reflexão

“O nosso mais alto propósito deve ser o de formar seres humanos livres, eles próprios capazes de constituir um desígnio e um sentido para as suas vidas.”
Rudolf Steiner

São palavras intensas e apelativas as de Rudolf Steiner, inspirador da Pedagogia Waldorf e ele próprio fundador, em 7 de Setembro de 1919, da “die Freie Waldorfschule” (Escola Livre Waldorf), em Stuttgard, na Alemanha. Logo nesse momento Steiner definiu quatro grandes sentidos para a sua Escola, que representaram um pensamento inovador para a época:
- uma escola aberta a todas as crianças, independentemente da sua origem social, cultural ou religiosa;
- uma escola sem separação de sexos;
- uma ambiência de aprendizagem fecunda, assumindo a formação holística do ser humano;
- a independência face ao Estado e face às forças económicas.
As Escolas Waldorf multiplicaram-se desde então, sobretudo pela Europa e Estados Unidos, constituindo hoje uma referência incontornável na história da Pedagogia contemporânea.

Sublinhemos alguns dos princípios e algumas das características mais interessantes da Pedagogia Waldorf:
· A sua fundação num contexto filosófico coerente, cuja matriz induziu abordagens noutros campos científicos, dos quais os mais conhecidos serão, para além da Educação (Pedagogia Waldorf), a Medicina (Medicina Antroposófica) e a Agricultura (Agricultura Biodinâmica);
· A assumpção da integralidade do ser, fazendo radicar os percursos de aprendizagem e desenvolvimento nos amplexos em que nos construímos humanos (corpo, mente, espírito; “cabeça, coração e mãos”; físico, psíquico e espiritual);
· Um currículo implicado com as dimensões estética e artística do desenvolvimento, orientando, por exemplo, a criança do jardim de infância “para a vivência de experiências múltiplas e ricas, através do jogo, dos contos tradicionais, das canções de roda, do movimento, dos ritmos, das cores, dos sons, do canto”.
· O compromisso ético com a defesa do ambiente, desenvolvendo com os alunos, desde o jardim de infância, práticas educativas em que a responsabilidade cívica pela construção de um mundo ecologicamente sustentável, e o respeito pela Vida, constituem importantes pilares epistémicos e organizacionais;
· A criatividade como “coração” e sustento das vivências e experiências escolares, fazendo apelo permanente à imaginação da criança: nos jardins de infância Waldorf “imaginação e educação são uma só coisa”, lê-se no site dos Waldorf Kinder-House dos EUA;
· A forte implicação dos pais no processo educativo. Quem inscreve os seus filhos numa Escola Waldorf fá-lo por consciência: é natural que todo o percurso escolar seja amplamente suportado na tríade educadora-pais-crianças. Aliás, as Escolas Waldorf são sempre associações que têm na origem um grupo de pais interessados em proporcionar aos seus filhos uma educação de qualidade;
· A unidade entre ciclos de ensino, que as Escolas Waldorf normalmente assumem (organizadas para receber crianças desde o pré-escolar até ao secundário), permite-lhes estabelecer um continuum educativo que pode ser um factor decisivo para o progresso nos estudos;
· A preocupação com a qualidade ambiental da arquitectura e com a beleza e harmonia dos espaços e dos materiais utilizados
· Uma relação educativa securizante, favorecendo a descoberta e os processos de socialização no grupo.

Paradoxalmente, a força da Pedagogia Waldorf – coerência dos seus fundamentos e originalidade do seu currículo – corresponde também à sua fraqueza. Acusações de fundamentalismo, fechamento e defesa intransigente de práticas educativas e rotinas escolares que não se inovaram por “ensimesmamento” das Escolas Waldorf, incapazes de incorporarem os avanços no campus das Ciências da Educação, nomeadamente os estudos sobre a Psicologia da Criança, têm sido recorrentes, sobretudo em França. O endeusamento do seu fundador, Rudolf Steiner, personalidade brilhante e misteriosa (Steiner foi um dos grandes ocultistas do final do século XIX e princípios do século XX), tem provocado alguns fenómenos de seguidismo e rigidez de análise que parecem contrariar o discurso fundado na liberdade e na criatividade. Certas afirmações e certas práticas parecem relevar mais de uma infância imaginada (de uma criança idealizada), do que do menino real, pertença de um locus específico, de uma cultura concreta, de um tempo presente.
 
Monday, January 19, 2004
  Há palavras que nos acordam:

"(...) Numa sociedade de desigualdades tão profundas,
de heranças tão opostas,
onde a palavra de ordem é a competição desenfreada,
a escola marca o individualismo dos percursos
para premiar os que chegam primeiro ou vão mais longe,
independentemente do fôlego cultural ou do diferente ponto de partida,
gerando a ideia de que todos somos, fatalmente,
potenciais inimigos porque obrigados à concorrência.
A isso contrapomos o único modo dignificante de convivência
que é a colaboração e a entreajuda:
a solidariedade no trabalho e na vida pela cooperação educativa."

SÉRGIO NIZA (1992)
 
  Bem-vindos e benvindas!
Sejamos lúcidos para aceitar mesmo o fim da educação!
Aqui partilharemos as nossas utopias sobre como nos poderemos educar para... ousar educar os outros. 
Um espaco para debater os sentidos do educar. Uma demanda de horizontes onde nos possamos, em comum, fazer mais sábios. Para uma nova ecologia e uma nova economia do trabalho de aprendizagem nas escolas. Porque a educação nos faz falta! Mas também porque a educação nos pode reduzir a vida! Contacto: coisas_da_escola@hotmail.com

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